Competitividade brasileira do café: mercados internacionais, estrutura de custos e dinâmica produtiva
Campo Futuro
O café brasileiro atravessou um dos períodos mais complexos de sua história recente. Embora a safra 2024/25 tenha alcançado receita cambial recorde de US$ 14,728 bilhões, o volume exportado recuou 20,3%, evidenciando que o desempenho financeiro excepcional foi sustentado majoritariamente pela forte valorização internacional dos preços — que subiram cerca de 60% ao longo do período — e não pela expansão dos embarques. Esse movimento refletiu uma combinação simultânea de fatores: a desorganização do comércio internacional causada pelas tarifas temporárias impostas pelos Estados Unidos, limitações logísticas internas que comprimiram a capacidade de embarque e um cenário global de oferta restrita, influenciado por eventos climáticos e pela volatilidade dos mercados futuros.
Entre agosto e meados de novembro de 2025, o café brasileiro foi submetido a uma tarifa adicional no mercado norte-americano, que alcançou aproximadamente 40–50% sobre o produto importado. O impacto foi imediato: as compras norte-americanas recuaram mais de 51% em poucos meses, e parte do fluxo comercial precisou ser redirecionado para outros mercados. Esse período marcou uma das maiores eorganizações geográficas das exportações brasileiras em décadas. Importante destacar que tais tarifas foram posteriormente retiradas, abrindo espaço para recomposição gradual dos fluxos — mas essa normalização ainda não se refletiu plenamente nos números mais recentes (Gráfico 1).
Nesse período, observou-se redistribuição dos volumes exportados. A Alemanha consolidou-se como principal destino, com aumentos sucessivos ao longo de 2025, enquanto a China manteve forte crescimento no acumulado do ano, ainda que sem aceleração adicional em novembro. Bélgica e Itália apresentaram comportamentos mais moderados, e a Colômbia manteve compras elevadas, resultado de triangulações comerciais intensificadas durante o período tarifário (Gráfico 2). Com isso, o mapa global de destinos do café brasileiro se reorganizou de forma significativa, refletindo tanto fatores conjunturais quanto transformações estruturais na demanda internacional.
Esses movimentos evidenciam que a análise do posicionamento internacional do café brasileiro não pode ser realizada de forma isolada. A competitividade externa depende diretamente da competitividade interna — especialmente da estrutura de custos de produção nas diferentes regiões brasileiras. A posição do Brasil como maior produtor e exportador mundial não se sustenta apenas na escala, mas na pluralidade de sistemas produtivos que compõem a cafeicultura nacional. O país reúne desde modelos altamente mecanizados e tecnologicamente avançados, capazes de operar com custos reduzidos e competir mesmo em períodos de preços mais baixos, até sistemas intensivos em mão de obra ou localizados em áreas de maior restrição física, que apresentam menor eficiência econômica, mas desempenham papel fundamental na formação do volume total produzido.
Além disso, esses sistemas menos eficientes sob a ótica estritamente econômica contribuem de maneira decisiva não apenas para a escala, mas também para a diversidade e para o posicionamento qualitativo do café brasileiro. Em regiões de montanha e áreas onde a mecanização é limitada, predominam modelos capazes de produzir cafés com atributos diferenciados — seja por práticas de manejo específicas, certificações socioambientais ou pela qualidade intrínseca associada ao terroir. Esses cafés atendem nichos de mercado em expansão, geram prêmios relevantes e fortalecem a reputação do Brasil como origem diversa e capaz de atender múltiplos perfis de demanda. Assim, mesmo com estruturas de custo mais elevadas, esses sistemas ampliam a capacidade do país de capturar valor em segmentos premium e consolidam sua presença em mercados diferenciados.
Compreender essa diversidade regional é essencial para interpretar a dinâmica da competitividade brasileira, uma vez que cada modelo produtivo responde de maneira distinta às oscilações de preço, aos custos operacionais e às condições de mercado. A análise das exportações, portanto, só se torna completa quando acompanhada de uma leitura detalhada dos custos de produção. É nesse ponto que os dados do Projeto Campo Futuro (Gráfico 3) se tornam indispensáveis, ao revelar quais regiões são estruturalmente resilientes, quais são mais sensíveis às variações de preço e como cada sistema contribui para a sustentabilidade da competitividade nacional no longo prazo.
Os dados de COT mostram três grandes faixas de custo no Brasil. Regiões com COT mais baixo, geralmente mecanizadas ou localizadas em áreas de topografia favorável, conseguem sustentar margens maiores mesmo quando os preços internacionais recuam. Regiões intermediárias combinam diferentes níveis de mecanização, escala e produtividade. Já regiões de maior custo, como grande parte dos polos de canephora no Espírito Santo e em Rondônia, apresentam estruturas produtivas mais intensivas em mão de obra e maior sensibilidade às oscilações de preço. Esse conjunto revela uma competitividade heterogênea, em que a rentabilidade não depende apenas da produtividade física, mas da relação entre custos, preço recebido e capacidade de diluir o capital imobilizado.
A análise de rentabilidade (Gráfico 4) confirma que produtividade elevada não implica necessariamente maior retorno econômico. O caso das Matas de Rondônia ilustra bem essa relação: mesmo com rodutividade de 67 sc/ha, a rentabilidade é de apenas 7,98%, resultado dos custos elevados e do menor preço do canephora no mercado. Em contraste, regiões como o Norte de Minas alcançam rentabilidades em torno de 79,55% com produtividades intermediárias, graças à estrutura de custos mais enxuta (ganho de escala pelo tamanho modal) e ao preço superior do arábica. Esses casos evidenciam que a rentabilidade observada em 2024/25 — elevada em muitas regiões — foi, em grande medida, resultado da valorização conjuntural dos preços internacionais, e não de ganhos estruturais de eficiência. Com o COT crescendo de forma consistente, a sustentabilidade da margem do produtor dependerá cada vez mais da capacidade de adaptação do sistema produtivo às condições de mercado.
O posicionamento global do Brasil reforça a relevância dessa análise. O país responde por cerca de 37% da produção mundial (Gráfico 5), participação superior à soma de seus quatro principais concorrentes. Essa liderança histórica é sustentada por diversidade produtiva, forte base tecnológica, ampla extensão territorial e capacidade de abastecer diferentes segmentos do mercado internacional — de cafés diferenciados aos blends industriais.
No entanto, essa posição só é sustentável se a estrutura interna de custos permanecer competitiva. A elevação persistente do COT, somada às limitações logísticas, aos custos crescentes de transporte e aos ajustes comerciais observados após o período tarifário, reduz a margem de segurança econômica do produtor. Em ciclos de preços elevados, essas pressões são parcialmente absorvidas, mas em ciclos de preços mais baixos, tornam-se determinantes para a viabilidade econômica de diversos sistemas produtivos.
A leitura integrada dos mercados internacionais, dos custos regionais de produção e da rentabilidade mostra que o café brasileiro permanece altamente competitivo, mas mais sensível a choques externos e internos do que no passado. A cadeia produtiva reúne todos os elementos para sustentar a liderança global — diversidade, tecnologia, sustentabilidade e escala —, mas a continuidade dessa posição dependerá da capacidade de transformar essas vantagens em eficiência econômica permanente. A competitividade brasileira nos próximos anos dependerá crescentemente da capacidade de alinhar eficiência produtiva, estabilidade logística e inserção estratégica nos mercados internacionais.