Núcleo Econômico Empreendedores Familiares Rurais Agronegócio

Agricultura familiar vs agronegócio é uma falácia e um besteirol

Por *Marcos Sawaya Jank

Por CNA 16 de maio 2017
Compartilhe:
E145329 f00001 b282 1 0 648666002015145450081

Inicio uma série de artigos para abordar as falácias em torno da agricultura e do agronegócio. Falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar o que alega.

Boa parte dessas falácias nasce nas salas de aula do ensino médio, propagadas por professores desinformados e material didático questionável. Outras propagam-se na forma de chavões repetidos por formadores de opinião e veículos de mídia. Outras derivam de posições divergentes de autoridades e órgãos governamentais, naquilo que se costuma chamar de “fogo amigo”.

Exemplos de polêmicas falaciosas que foram se firmando com o tempo são o agronegócio contra a agricultura familiar, a produção de grande escala contra os pequenos produtores, os fazendeiros contra os assentados, a tecnologia intensiva contra a natureza. Entram também na lista as inverdades sobre monoculturas, transgênicos, defensivos agrícolas, antibióticos, bem estar dos animais e outros temas.

Comecemos hoje com a falácia que opõe o agronegócio e a agricultura familiar, que costuma gerar um filhote igualmente falso: os grandes produtores contra os pequenos.

As duas dicotomias não têm o menor fundamento. Para começar, a palavra “agronegócio” vem do termo em inglês “agribusiness”, que não passa de um marco conceitual criado para delimitar os sistemas integrados de produção de alimentos, fibras e bioenergia.

Seis décadas atrás, em 1957, o professor Ray Goldberg, de Harvard, constatou que a agropecuária deixara de ser um segmento isolado da economia (ou “primário”), tornando-se um elo fundamental das cadeias integradas de valor do agronegócio, cercada por segmentos industriais e de serviços a montante e a jusante.

O agronegócio nasce no melhoramento genético de plantas e animais e termina no consumo dos produtos finais: alimentos, bebidas, roupas, produtos da celulose e da borracha etc. Nesse contexto, a integração às cadeias do agronegócio tornou-se uma condição de sobrevivência para os produtores agropecuários, sejam eles grandes ou pequenos, corporações ou famílias, proprietários ou assentados.

Milhares de pequenos produtores familiares no Sul estão hoje profundamente integrados às cadeias produtivas de grãos, lácteos e carnes na região, comprando insumos e vendendo matérias-primas para agroindústrias processadoras. São parte fundamental do agronegócio brasileiro. Já grandes propriedades sem nenhuma produção não fazem parte do agronegócio.

Portanto, não é a escala que determina quem vai sobreviver, mas sim a integração e a eficiência.

Vale lembrar que o Brasil é um dos países com maior mobilidade social agrícola do planeta. Barões do café quebraram na crise de 1929, ao mesmo tempo em que migrantes italianos e japoneses pobres, que vieram colher café no interior de São Paulo, se tornaram os grandes produtores de cana, açúcar, etanol, hortaliças, algodão e outros produtos.

Pequenos agricultores familiares do Sul migraram para o Centro-Oeste nos anos 1970, abrindo a fronteira agropecuária do cerrado, ganhando escala, construindo estradas, cidades. Histórias fascinantes, que nunca foram bem contadas e reconhecidas.

Em suma, a maior parte dos grandes produtores de hoje é constituída por migrantes e pequenos produtores do passado.

A gestão das suas propriedades continua sendo familiar. A pequena agricultura familiar é parte fundamental do agronegócio. Mas o que interessa mesmo não é o tamanho das propriedades, e sim a sua gestão e sustentabilidade.

Não há, portanto, confrontação de modelos de produção, mas sim migração, evolução, inovação e integração. O resto é esse besteirol endêmico de quem se recusa a olhar a realidade e reconhecer que o Brasil tem belas histórias de sucesso para contar.

*Marcos Sawaya Jank, especialista em questões globais do agronegócio

Veja também

Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro | 3° Trimestre 2025
Publicações Boletim

Mercado de Trabalho do Agronegócio Brasileiro | 3° Trimestre 2025

Núcleo Econômico

6 de fevereiro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro Semana 02/02 a 06/02/2026 Edição 02
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro Semana 02/02 a 06/02/2026 Edição 02

6 de fevereiro 2026

Ler publicação
Agropecuária abriu 41.870 empregos formais em 2025
Publicações Caged

Agropecuária abriu 41.870 empregos formais em 2025

Núcleo Econômico e Núcleo de Inteligência de Mercado Núcleo Econômico e Núcleo de Inteligência de Mercado

6 de fevereiro 2026

Ler publicação
Nota Fiscal Fácil - Manual de Orientação ao Produtor Rural
Publicações Manual

Nota Fiscal Fácil - Manual de Orientação ao Produtor Rural

Núcleo Econômico

5 de fevereiro 2026

Ler publicação
Uso de capacete vs. chapéu no trabalho rural
Publicações Nota técnica

Uso de capacete vs. chapéu no trabalho rural

Jurídico

3 de fevereiro 2026

Ler publicação
Panorama do Agro  Semana 26/01 a 30/01/2026  Edição 01
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro Semana 26/01 a 30/01/2026 Edição 01

2 de fevereiro 2026

Ler publicação
Acordo de Parceria entre Mercosul e União Europeia
Publicações Nota técnica

Acordo de Parceria entre Mercosul e União Europeia

Relações Internacionais

22 de janeiro 2026

Ler publicação
Replantio da soja pode elevar custos em até 7,4 sacas por hectare
Publicações Campo futuro

Replantio da soja pode elevar custos em até 7,4 sacas por hectare

Cereais, Fibras e Oleaginosas

16 de janeiro 2026

Ler publicação
Mercado na aquicultura: o desafio de acompanhar seu dinamismo
Publicações Campo futuro

Mercado na aquicultura: o desafio de acompanhar seu dinamismo

Aquicultura

16 de janeiro 2026

Ler publicação
2ª edição do Manual de Boas Práticas das CADECs
Publicações Comunicado técnico

2ª edição do Manual de Boas Práticas das CADECs

Aves e Suínos

15 de janeiro 2026

Ler publicação