PIB do Agronegócio cresce 3,81% em 2019

Por: Superintendência Técnica da CNA e Cepea

O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro, calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e com a Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), cresceu 3,81% em 2019, frente a 2018. Com esse desempenho, em 2019, o PIB do agronegócio representou 21,4% do PIB brasileiro total.

Entre os segmentos do setor, o PIB cresceu para insumos (5,54%), agroindústria (4,99%) e agrosserviços (6,77%), mas recuou para o segmento primário (3,03%); nesse último caso, pressionado para baixo pela agricultura (Tabela 1). Pela perspectiva dos ramos, nota-se que, em 2019, o agronegócio foi impulsionado pelo excelente desempenho do ramo pecuário, ao passo que o ramo agrícola recuou (Tabelas 2 e 3).

Tabela 1. PIB do Agronegócio: Taxa de variação mensal e acumulada no período (%)

A Tabela 2 mostra os resultados específicos do ramo agrícola do agronegócio. Verifica-se que o PIB do ramo, que teve queda de 3,46%, foi pressionado pela redução expressiva de 13,95% no PIB do segmento primário agrícola. É importante lembrar que o PIB do agronegócio discutido nesse relatório (PIB-renda) adota uma metodologia que capta variações tanto de preços reais quanto de volume, diferentemente do IBGE. Como os preços agropecuários usualmente variam em grandes magnitudes, o comportamento do PIB também tem variações expressivas.

No caso específico do segmento primário agrícola, como já destacado em relatórios anteriores, a queda no PIB em 2019 não decorre de um desempenho pouco satisfatório dos produtores em termos de volume produzido, já que a produção aumentou frente a 2018. O que explica a queda observada é a combinação entre crescimento do custo de produção e redução de preços de produtos importantes, que, em conjunto, atuaram comprimindo a renda no segmento.

Entre os demais segmentos do ramo, o PIB dos agrosserviços também reduziu, mas de forma mais modesta, 2,06%. Já a agroindústria e os insumos agrícolas cresceram, 6,02% e 0,72%, respectivamente.

Tabela 2. Ramo Agrícola: Taxas de variação mensal e acumulada no período (%)

A Tabela 3 mostra os resultados para o ramo pecuário. Ao contrário do agrícola, o ramo pecuário cresceu expressivos 23,71% em 2019, frente a 2018, com altas importantes em todos os segmentos. Os crescimentos em 2019 foram de 4,55% para insumos, 20,44% para primário, 22,89% para agroindústria e 28,9% para agrosserviços.

Tabela 3. Ramo Pecuário: Taxas de variação mensal e acumulada no período (%)

Como já mencionado em relatórios anteriores, o excelente desempenho do PIB do ramo pecuário em 2019 reflete: i) por um lado, a alta significativa dos preços em todas as cadeias acompanhadas, motivada principalmente pela demanda aquecida por carne no mercado externo em decorrência da Peste Suína Africana (PSA), e seu efeito sobre o preço das demais proteínas que são substitutas, como os ovos; ii) e por outro, a reação do setor a esse cenário favorável, aumentando a quantidade produzida.

SEGMENTO DE INSUMOS: insumos agrícolas e pecuários crescem em 2019

O PIB do segmento de insumos do agronegócio cresceu 5,54% em 2019, com altas para os insumos agrícolas (6,02%) e pecuários (4,55%) – Tabelas 1, 2 e 3. Conforme se observa na Figura 1, que mostra as variações anuais de volume, de preços e de faturamento para as atividades de insumos acompanhadas, com exceção da indústria de máquinas agrícolas, todas as demais cresceram em 2019. Em geral, os cenários foram favoráveis tanto em preços quanto em produção para as indústrias acompanhadas.

Figura 1. Insumos: variação (%) anual de volume, dos preços e do faturamento – 2019/2018 com informações até dezembro/2019

Entre as atividades acompanhadas, destaca-se o crescimento do faturamento da indústria de defensivos agrícolas, de 23,74% na comparação com 2018, como resultado dos aumentos da produção (18,30%) e dos preços reais (4,60%). Por um lado, tem-se a constante ampliação da área produzida entre grandes culturas, que impulsiona a demanda pelo insumo; por outro, esse ano foi marcado pelo recorde de registros de novos produtos: 474 no total, sendo 448 genéricos. A produção de genéricos representa a expiração de uma patente e a possibilidade de reproduzir um defensivo a base de uma substância antes em poder de uma empresa, o que beneficia a concorrência e influencia o aumento da produção. Por fim, conforme foi destacado nos últimos relatórios, a redução da oferta de defensivos advindos da China, em virtude das políticas de mitigação da poluição e regulamentação do setor naquele País, também deve ter influenciado a produção doméstica. Os preços, por sua vez, avançaram principalmente em função da taxa de câmbio que, no ano de 2019, se desvalorizou em comparação com 2018.

Para a indústria de fertilizantes, o crescimento do faturamento foi de 3,38%, via preços 1,85% maiores e produção 1,5% maior em 2019, frente a 2018. O aumento dos preços refletiu a desvalorização do Real frente ao dólar (2019 versus 2018) e o encarecimento de algumas matérias-primas importantes para a produção de fertilizantes, como petróleo e gás natural. Destaca-se, no entanto, que o preço do produto recuou mensalmente de outubro em diante, comportamento parcialmente relacionado à formação de estoques mundiais em decorrência da redução de consumo pelos agricultores norte-americanos. A indústria de máquinas e equipamentos agrícolas, dentre as atividades que compõem o segmento de insumos, foi a única que registrou faturamento com desempenho negativo. A queda de 9,84% decorreu da diminuição de 12,40% na produção, em comparação a 2018.

SEGMENTO PRIMÁRIO: agricultura recua, mas pecuária cresce expressivamente em 2019

O PIB do segmento primário do agronegócio caiu 3,03% em 2019, frente a 2018. Essa queda decorreu do recuo verificado no PIB do segmento primário agrícola, de 13,95%. Ao contrário, o PIB do segmento primário pecuário apresentou desempenho excepcional, com alta de 20,44% (a maior desde 2013) – Ver Tabelas 1, 2 e 3. 

Como já apontado no início desse relatório, é preciso enfatizar que a queda do PIB do segmento primário agrícola ocorreu mesmo com o crescimento da produção das lavouras. Considerando a média ponderada das diversas atividades agrícolas acompanhadas, o aumento de produção em 2019 foi de 1,89%, impulsionado pelas volumosas safras de algodão, banana, cana-de-açúcar, laranja e milho. Esse aumento é importante, principalmente se considerando que se trata do terceiro ano sucessivo em alta (os crescimentos de volume de produção foram de 1% em 2018 e de expressivos 14,1% em 2017).

Então, mesmo com uma produção agrícola maior, o PIB do segmento foi pressionado pelo aumento no custo de produção e pelos menores preços de produtos importantes, como algodão, café, mandioca e soja – fatores que, em conjunto, atuaram comprimindo a renda no segmento.

Já no caso do segmento primário pecuário, mesmo com um custo de produção também maior em 2019, as fortes elevações nos preços dos produtos, associadas ao crescimento da produção, impulsionaram o PIB.

Especificamente, o faturamento médio das atividades do segmento primário agrícola ficou praticamente estável em 2019, com leve alta de 0,3% frente a 2018. Enquanto a produção cresceu 1,89%, como já mencionado, os preços médios recuaram 1,52%. Já para o segmento primário da pecuária, o faturamento cresceu 13,41% em 2019, com alta de 9,98% no preço médio ponderado das atividades e crescimento de 3,12% da produção. Destaca-se, novamente, o efeito importante da PSA sobre os mercados pecuários brasileiros em 2019.

As Figuras 2 e 3 e a Tabela 4 detalham os resultados específicos do segmento por atividades agrícolas e pecuárias. Entre as culturas do segmento primário agrícola acompanhadas, houve crescimento nos faturamentos em 2019 de algodão, banana, batata, cacau, cana-de-açúcar, feijão, laranja, milho, tomate, uva e lenha/carvão. Já as culturas para as quais houve quedas no faturamento são arroz, café, fumo, mandioca, soja, trigo, madeira em tora e madeira para celulose – Figura 2 e Tabela 4.

O crescimento do faturamento em 2019 de 6,33% da cana-de-açúcar foi resultado da expansão da produção anual em 3,59% e dos preços reais em 2,64% na comparação entre 2019 e 2018. De acordo com a Conab, a maior produção foi reflexo da maior produtividade (4,9%) da cultura, uma vez que houve redução da área colhida (-1,3%). No Estado de São Paulo, responsável por aproximadamente 53% da produção na safra 2019/2020, as chuvas ocorridas em abril e maio contribuíram para os ganhos produtivos. Nos demais Estados, os investimentos realizados nas safras passadas, as boas condições climáticas, a renovação gradual das lavouras e a melhoria no manejo e tratos da cultura favoreceram a produtividade. Segundo a Companhia, a redução da área colhida foi devida à menor área de fornecedores, do que muito se deve ao cultivo de culturas com boa rentabilidade, como soja e milho.

Com relação à cultura do milho, o crescimento no faturamento anual (25,12%) também foi explicado pelos avanços na quantidade produzida (23,95%) e nos preços reais (0,94%) na comparação entre os anos. Segundo a Conab, a produção recorde deveu-se à maior área destinada à cultura (5,3%) e às maiores produtividades (17,7%). Com relação ao avanço da área, o destaque foi dado à segunda safra, em que se observou um aumento de 8,3%, ao passo que na safra verão, ou primeira safra, se observou uma redução de 3,8% – em função, especialmente, da maior rentabilidade da soja (que concorre em área com o milho verão). Com relação à produtividade, as boas condições climáticas e a antecipação do plantio da soja possibilitaram o aproveitamento ótimo da janela climática e, por consequência, os ganhos de produtividade acima da média das principais regiões produtores. Com relação aos preços, os menores estoques e a menor área destinada ao milho primeira safra impulsionaram as cotações no primeiro bimestre do ano. De março a maio, os preços foram pressionados pelo aproveitamento da janela climática, pelas condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento da cultura, pela perspectiva de maior produção na segunda safra e pela maior disponibilidade do cereal devido à colheita da primeira safra. A partir de agosto, as cotações apresentaram tendência de alta, fato explicado pela desvalorização do Real frente ao Dólar, pela demanda mais aquecida (interna e externa), pelas condições climáticas desfavoráveis em algumas regiões produtoras (dificultando o semeio da safra verão 2019/2020) e pela resistência, em alguns meses, de vendedores em negociar grandes lotes no mercado (diante do ritmo forte de embarques programados antecipadamente).

Para o algodão, houve expansão de 14,59% no faturamento anual, reflexo do crescimento de 38,55% na produção, uma vez que houve uma redução de 17,29% no preço real na comparação entre 2019 e 2018. De acordo com a Conab, a maior produção, considerada recorde, se deveu à expansão da área (37,8%), visto que se observou uma menor produtividade (1,3%) – queda causada por oscilações climáticas ao longo do ciclo da cultura. De acordo com a equipe Algodão/Cepea, a redução nos preços na comparação entre 2019 e 2018 foi atribuída especialmente aos altos preços de 2018, resultado da conjuntura político-econômica daquele ano, em que se observou baixo estoque doméstico, paridade da exportação positiva, preços internos elevados, desvalorização do Real frente ao Dólar e paralisação de caminhoneiros em maio. Em 2019, a equipe também destaca que a disparidade entre os preços e a qualidade da pluma limitaram as negociações, o que também contribuiu para as menores cotações.

No caso da cultura do feijão, o aumento no faturamento (70,52%) foi atribuído apenas ao aumento nos preços na comparação entre os anos (75,8%), uma vez que houve uma menor produção (3,00%). De acordo com a Conab, a menor produção foi reflexo da diminuição da área destinada à cultura em importantes regiões produtoras, uma vez que houve maiores produtividades. Como destacado nos relatórios anteriores, este cenário resultou de condições climáticas adversas e do desempenho insatisfatório da cultura na safra passada, que levaram à redução na área plantada.

Para a horticultura, os crescimentos de faturamento em 2019 da banana (23,7%) e da batata (96,92%) foram reflexo dos aumentos tanto na produção quanto nos preços na comparação entre 2019 e 2018. Já para a laranja, o aumento (4,69%) refletiu o avanço na produção, uma vez que houve uma ligeira redução dos preços reais na comparação entre os anos. No caso do tomate, ao contrário, a expansão no faturamento (5,08%) foi resultado apenas da elevação nos preços reais, uma vez que se observou uma menor produção para o ano.

Na cultura da banana, a expansão da quantidade produzida foi de 6,01%, e os preços aumentaram 16,69% na comparação entre os anos. De acordo com a equipe Hortifrúti/Cepea, o aumento nos preços da banana foi atribuído às adversidades climáticas que afetaram o desenvolvimento da fruta no início de 2019, à redução no investimento na cultura (baixa capitalização do produtor no segundo semestre de 2018) e à baixa oferta nacional de frutas de maior qualidade.

No caso da batata, houve uma combinação de alta expressiva nos preços reais (96,56%) e ligeiro aumento na produção (0,18%), entre 2018 e 2019. De acordo com a equipe Hortifrúti/Cepea, o forte aumento dos preços foi reflexo de adversidades climáticas que afetaram a produtividade e de uma área destinada à cultura também restrita em 2019.

Para a laranja, o aumento da quantidade produzida foi de 5,62%. Segundo a equipe Hortifrúti/Cepea, o crescimento foi decorrente das condições climáticas favoráveis, da menor produção na safra anterior e da demanda industrial aquecida pelo produto. O preço, por sua vez, apresentou ligeira queda de 0,88%, devido à safra volumosa no País. A redução de preços não foi maior devido à boa demanda industrial pela fruta.

Para o tomate, houve aumento nos preços reais de 5,32% na comparação entre 2019 e o ano anterior, e ligeira queda na produção, de 0,22%. De acordo com a equipe Hortifrúti/Cepea, o cultivo do tomate apresenta queda de produção desde 2013, em virtude da redução das áreas destinadas à cultura e das produtividades. Especificamente em 2019, de janeiro a abril, ocorreu elevação acentuada das cotações, devido ao excesso de calor ocorrido em janeiro e ao excesso de chuvas no Sul e no Sudeste em fevereiro e março – fatores que afetaram a oferta e a qualidade do produto. A equipe ainda destaca que a alta nos preços se manteve mesmo com a melhora na oferta a partir de maio, com a intensificação da colheita da safra de inverno.

Figura 2. Agricultura: Variação (%) anual do volume, dos preços e do faturamento – 2019/2018 com informações de dezembro/2019

Tabela 4. Agricultura: Variação (%) anual do volume, dos preços e do faturamento – 2019/2018 com informações de dezembro/2019

Dentre as culturas com reduções no faturamento, destaca-se o café. O menor faturamento da cultura (24,99%) em 2019 refletiu os menores preços reais (6,20%) e a menor produção (20,03%). De acordo com a Conab, a produção inferior foi resultado das reduções na área e na produtividade da cultura. A menor área esteve relacionada à tomada de decisão dos produtores por se tratar de uma safra de bienalidade negativa, aproveitando para realizar tratos culturais. Como destacado pela Companhia, apenas Minas Gerais, dentre os principais estados produtores, apresentou avanço na área destinada à produção. A redução na produtividade, como esperado, esteve relacionada aos impactos ocasionados pela bienalidade negativa, somados a intempéries climáticas que afetaram a cultura em dezembro de 2018 e janeiro de 2019. Com relação aos preços, a equipe Café/Cepea destaca que as reduções só não foram maiores na comparação com 2018 devido às altas cotações nos últimos meses de 2019. Até o mês de outubro, os valores foram influenciados pelas perspectivas iniciais de oferta confortável da safra 2019/2020. Mas, os preços registram recuperação a partir de novembro, devido à menor oferta de cafés finos, à preocupação quanto à safra 2019/2020, à maior demanda e à desvalorização do Real frente ao Dólar.

No caso da soja, o menor faturamento anual (-9,33%) em 2019 também se deveu às diminuições do preço (-5,97%) e da produção (-3,56%), frente a 2018. De acordo com a Conab, a queda na produção foi atribuída à redução na produtividade (-5,5%). Segundo a Companhia, as adversidades climáticas registradas no final de 2018 e início de 2019 afetaram o rendimento da cultura em importantes regiões produtoras, como Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná. Com relação ao aumento de área, a Companhia destaca que a alta liquidez da soja, somada às boas cotações em momentos anteriores ao plantio da safra, incentivaram a expansão. Com relação aos preços, o início de 2019 foi marcado pelas incertezas quanto à guerra comercial entre Estados Unidos e China e quanto ao clima. Em abril, os preços foram pressionados pela maior oferta nacional (época da colheita) e internacional (safra argentina) e pela forte desvalorização dos contratos futuros nos Estados Unidos. A partir de junho as cotações foram impulsionadas, reflexo das condições climáticas adversas que afetaram o cinturão agrícola dos Estados Unidos, da desvalorização do Real frente ao Dólar, do clima desfavorável ao semeio no Brasil e do baixo excedente da soja brasileira. Entretanto, estas valorizações não possibilitaram um aumento nos preços na comparação entre 2018 e 2019.

Conforme foi largamente reportado ao longo de 2019, a crise desencadeada pela Peste Suína Africana (PSA), que atingiu países asiáticos, afetou direta e indiretamente o agronegócio brasileiro, sendo a Pecuária de corte o principal promotor dessas mudanças. A China, que é historicamente a maior consumidora e produtora de carne suína, sofreu uma redução expressiva de seu rebanho. Em resposta, por um lado a demanda por carne brasileira foi largamente impulsionada, e por outro, os preços de soja adversamente afetados. A Figura 3 detalha os resultados específicos do segmento por atividades pecuárias.

Figura 3. Pecuária: Variação anual dos preços e do faturamento 2019/2018 com informações de dezembro/2019

A suinocultura, por exemplo, foi a atividade que registrou a maior elevação de preços em 2019: 29,65% frente a 2018. Com o setor respondendo ao cenário positivo, a produção também teve crescimento, de 4,21%. O impulso costumeiro da demanda doméstica nos últimos meses do ano também influenciou na alta de preços.

Também estimulada principalmente pela demanda externa, mas, na comparação com 2018, apresentando aumentos mais sutis nos preços (8,03%) e na produção (3,14%), a bovinocultura também elevou seu faturamento em 2019 (11,43%). Segundo a equipe Boi/Cepea, no ano foi registrado o maior nível real do preço da arroba de boi gordo da série histórica iniciada em 1994. Isso ocorreu especificamente em novembro, quando se observou o aquecimento da demanda doméstica pela carne, concomitantemente ao da demanda externa, que já vinha aquecida desde o início do ano, em especial a partir de segundo semestre. A equipe ainda acrescenta que, de janeiro a dezembro de 2019, o Brasil exportou 1,532 milhão de toneladas de carne bovina in natura, um recorde anual. Além da maior demanda, o preço também foi impulsionado pela oferta restrita de animais prontos para abate. No caso da bovinocultura, dada a restrição de oferta, o pecuarista precisou investir em produtividade para aproveitar o cenário favorável da demanda e, logo, dos preços. Viu-se, por exemplo, que a engorda via confinamento no País bateu recorde em 2019, com 5,2 milhões de bovinos confinados, segundo dados da DSM.

A avicultura de corte também registrou alta considerável dos preços reais (13,09%), ao passo que a produção de aves permaneceu praticamente inalterada em 2019 (-0,07%), resultando no aumento do faturamento da atividade de 13,02%. Pesquisadores da equipe Frango/Cepea apontam que as exportações da carne, embora tenham sido firmes, ficaram aquém das boas expectativas atreladas ao possível efeito da PSA sobre a demanda internacional. Segundo a equipe Exportações/Cepea, o volume da carne exportada cresceu apenas 4% em relação a 2018. Mesmo com o aumento da demanda chinesa, houve reduções das compras de outros entre os principais parceiros comerciais: Arábia Saudita, Japão e África do Sul. Nesse sentido, a equipe aponta que a sustentação dos preços de carne ao longo do ano, principalmente nos últimos meses, e seus reflexos sobre o preço do animal vivo, vieram da demanda interna. Com os preços elevados das carnes em geral, o brasileiro acabou procurando o produto mais barato.

O aumento de preços das carnes impulsionou também a demanda por ovos, enquanto fonte de proteína mais barata. A maior demanda levou os preços reais a um patamar superior àquele registrado em 2018 (7,33%). Em resposta, a produção de ovos também cresceu (6,40%). Segundo o levantamento de Produção de Ovos de Galinha, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2019, foi registrado o maior volume de produção de toda a série histórica, iniciada em 1987.

O ano de 2019 foi atípico para o setor de lácteos, marcado por preços altos no campo, mesmo num contexto de consumo retraído dos derivados, em decorrência da oferta limitada dentro da porteira e do aumento da competição entre os laticínios para assegurar mercado. De modo geral, o aumento de 6,99% no faturamento da atividade refletiu a alta de 4,63% nos preços e a produção 2,25% maior.

SEGMENTO INDUSTRIAL: Agroindústria acelera em 2019, acumulando alta de 4,99%

Depois de crescer modestos 0,75% em 2018, em 2019, a agroindústria acelerou e cresceu 4,99%. O principal impulso ao PIB da agroindústria veio da indústria de base pecuária, que teve crescimento de 22,89%. Mas, a indústria de base agrícola também cresceu, 0,72% (Tabela 1 a 3).

Na indústria de base agrícola, o faturamento anual ficou estável (-0,01%). Embora a indústria tenha aumentado sua produção, com crescimento médio de 0,85%, houve queda real nos preços médios ponderados, de 0,85%. Para a indústria de base pecuária, o faturamento aumentou 9,06%, via preços médios 9,06% maiores e produção 1,23% maior.

As indústrias de base agrícola que apresentaram crescimento do faturamento em 2019, em menor ou maior grau foram: de biocombustíveis, de vestuário, de moagem e fabricação de amiláceos, de conservas de frutas, legumes e outros vegetais, de açúcar e de bebidas. (Figura 4).

Ao longo da safra 2019/2020, a produção de etanol registrou sucessivos recordes, impulsionados pela maior participação do etanol de milho. Em comparação a 2018, a produção anual cresceu 7,21%. A demanda, por sua vez, manteve-se aquecida, dada a vantagem do preço do etanol sobre a gasolina – embora tenha havido uma pequena retração real de 0,86%, na comparação entre anos.

Quanto ao açúcar, no ano de 2019, pela segunda vez consecutiva, as usinas do Estado de São Paulo, o principal produtor de cana-de-açúcar do país, atribuíram maior parcela de ATR à produção de etanol em detrimento da produção de açúcar. No entanto, segundo a CONAB, em relação à temporada 2018/2019, a quantidade de ATR global cresceu e, com isso, a produção de açúcar pelas usinas de processamento esteve 3,82% maior que no ano passado. Por sua vez, o preço, em média, esteve 6,69% acima dos patamares registrados no ano anterior e, como resultado, a indústria obteve faturamento anual 10,8% maior.

Figura 4. Agroindústrias de base agrícola: variação anual do volume, preços reais e faturamento das indústrias agrícolas acompanhadas

Conforme a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, 2019 foi um ano positivo para o setor de alimentos e bebidas industrializadas, marcado por crescimento considerável do faturamento impulsionado pelo aumento da produção. Especificamente para a indústria de conservas de frutas, legumes e outros vegetais, o crescimento de 30,3% da produção, em comparação a 2018, mais que compensou a retração de 2,5% nos preços reais. Para a indústria de bebidas, por sua vez, as variações apresentaram valores mais sutis: o incremento da produção de 4,0% e a retração de 1,2% nos preços, em comparação a 2018, resultaram no crescimento de 2,7% do seu faturamento anual.

A indústria do café registrou desempenho negativo em 2019. Embora a produção tenha crescido 1,6% no ano, a queda de 12,4% dos preços reais, em comparação a 2018, ocasionou redução de 11,0% do faturamento anual. A queda dos preços registrada na indústria do café foi consequência direta do recuo do preço do grão ao longo de 2019, em função do aumento da oferta mundial e redução da qualidade, em virtude de intempéries climáticas (chuvas e risco de geadas em junho e julho).

A indústria de papel e celulose, que representa parcela significativa do VBP do segmento, teve seu faturamento anual reduzido (3,40%), em virtude da queda da produção anual (4,20%). Conforme relatório da Indústria Brasileira de Árvores, a redução da produção de celulose reflete o menor nível de atividade de fábricas importantes da indústria, com o objetivo de minimizar os estoques formados a partir do fim de 2018.

No caso das indústrias de base pecuária, conforme informa a Tabela 5, tem-se, em destaque, o aumento consistente do faturamento da indústria de abate e preparação de carnes e pescado (14,66%) – assim como observado no segmento a montante. Como já mencionado nos relatórios ao longo desse ano, e na análise do segmento primário da pecuária desse relatório, a demanda por carnes brasileiras foi impulsionada pela China, em decorrência da PSA. O país chinês foi o principal destino de carnes suínas (39%) e bovinas (35%), e o segundo principal destino das carnes avícolas (16%). O setor de pecuária, segundo a equipe Exportações/Cepea, ocupou o segundo lugar em termos de participação na pauta de exportações do agronegócio brasileiro em 2019 (representando 17% do total comercializado).

Para a indústria do abate como um todo, o aumento dos preços reais foi de 12,23% frente a 2018, e a produção aumentou 2,19% (Tabela 5). De acordo com a equipe Suínos/Cepea, o alto patamar de preços da carne bovina, principal substituto da carne suína, colaborou para a alavancagem de vendas, em especial, ao final do ano – quando há um costumeiro aumento da procura, seja pelos atacadistas que formam estoques, ou pela população em geral que se prepara para as comemorações de fim de ano. A equipe Frango/Cepea, por sua vez, atribui ao mercado interno o impulso à demanda por proteína avícola, em especial, devido à forte elevação de preços de outras proteínas animais.

Tabela 5. Agroindústrias de base pecuária: variação anual do volume, preços reais e faturamento das indústrias pecuárias acompanhadas

Para a indústria de laticínios, conforme já mencionado, 2019 foi um ano atípico. A alta nos preços do leite ao produtor, dada a oferta restrita do produto, e o aumento da concorrência entre as indústrias produtoras de laticínios com esforço para não repassar a alta da matéria-prima para o consumidor final, devido ao baixo nível de consumo, resultou em pressão sobre a margem de lucro. Ainda assim, o aumento de preços (3,02%) contribuiu para garantir um aumento do faturamento da indústria (2,61%), frente à ligeira redução da produção (-0,40%).

SEGMENTO DE SERVIÇOS: dinamismo da pecuária impulsionou segmento

de agrosserviços em 2019

O PIB dos agrosserviços do agronegócio brasileiro cresceu 6,77% em 2019, impulsionado pela alta de 28,9% nos serviços pecuários. Os serviços agrícolas, ao contrário, recuaram 2,06% (Tabelas 1, 2 e 3).

O segmento de serviços da agricultura foi pressionado principalmente pelos menores preços médios de produtos agrícolas primários e industriais em 2019. Já a forte expansão do segmento de serviços da pecuária no ano refletiu o dinamismo dos segmentos a montante. A volumosa produção e os altos preços do ramo pecuário estimularam a demanda por uma grande quantidade de serviços de transporte, comercialização, armazenagem, entre outros serviços necessários para que os produtos chegassem ao consumidor final, seja ele o mercado doméstico ou a exportação.

CONCLUSÕES

O PIB (Renda) do agronegócio brasileiro cresceu 3,81% em 2019, revelando um desempenho significativamente superior à média da economia brasileira. Com isso, em 2019, o agronegócio ampliou sua participação na economia, passando a representar 21,4% em 2019 frente a 21,1% em 2018.

O grande destaque do agronegócio em 2019 foi o ramo pecuário, que cresceu expressivos 23,71%. Embora, em geral, a evolução da demanda interna tenha ficado aquém das expectativas, o desempenho das exportações de carnes foi um dos principais fatores a assegurar o excelente resultado do PIB do ramo.

A ocorrência do surto de Peste Suína Africana (PSA) nos países asiáticos causou um forte aumento na demanda mundial por carnes, e particularmente da China, elevando os preços internacionais das proteínas animais. Aproveitando o cenário favorável, o setor reagiu e expandiu sua produção. Então, em 2019, as cadeias pecuárias produziram mais e exportaram mais, a preços reais maiores.

Os volumes exportados de carne suína, bovina e de aves aumentaram 16%, 15% e 4%, respectivamente. Ao mesmo tempo, os preços em dólares das carnes suína, de aves e bovina cresceram 13,6%, 5% e 3,7%, respectivamente.

Já o PIB renda do ramo agrícola do agronegócio recuou 3,46% em 2019, mesmo com o crescimento dos elos industriais (insumos e agroindústria). A expansão anual da produção foi mais do que compensada pelo aumento dos custos de produção, impactando adversamente a renda principalmente dos agentes dentro da porteira do ramo agrícola. Contribuiu também a redução de preços de produtos importantes, como algodão, café, mandioca e soja. A produção média do ramo agrícola aumentou 1,89%, impulsionada pelas volumosas safras de algodão, banana, cana-de-açúcar, laranja e milho. Como já mencionado, esse aumento é importante, principalmente se considerando que se trata do terceiro ano sucessivo de alta (os crescimentos de volume de produção foram de 1% em 2018 e de expressivos 14,1% em 2017).

De modo geral, em 2019, o desempenho do agronegócio no front externo foi importante para o bom resultado do PIB. Além do complexo carnes, houve aumento no volume exportado de milho, algodão, café, frutas e etanol. Por outro lado, a queda do volume exportado e dos preços internacionais do complexo soja – líder em participação na pauta de exportações do setor –, atuou em sentido contrário e refletem por um lado a superação da guerra comercial entre China e EUA e, principalmente, o impacto da Peste Suína Africana que dizimou parcela importante da produção suína no país asiático com reflexos adversos no preço especialmente do farelo de soja.

Em 2019, a variação de 3,81% no PIB-renda foi reflexo de crescimentos de 0,2% no PIB-volume e de 3,6% nos Preços Relativos. Tanto o PIB-volume quanto os Preços Relativos foram impulsionados pelo ramo da pecuária no ano.

ANEXO I – Evolução mensal do PIB DO AGRONEGÓCIO
A1) PIB do Agronegócio: Taxas de variação mensal e acumulado do período (em %)

A2) PIB do Agronegócio: Participações dos segmentos (em %)

A3) PIB Volume do Agronegócio: Taxa anual (em %)*

  • Nota técnica: O PIB Volume do Agronegócio trata-se do PIB do agronegócio calculado pelo critério de preços constantes. Resulta, portanto, a variação apenas do volume de produção. Este é o indicador de PIB comparável às variações apresentadas pelo IBGE.

A4) PIB DO AGRONEGÓCIO - METODOLOGIA

O Relatório PIB do Agronegócio Brasileiro é uma publicação mensal resultante da parceria entre o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA), da Esalq/USP, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (FEALQ). O agronegócio é entendido como a soma de quatro segmentos: insumos para a agropecuária, produção agropecuária básica (ou primária), agroindústria (processamento) e agrosserviços – como na Figura que segue. A análise desse conjunto de segmentos é feita para o ramo agrícola (vegetal) e para o pecuário (animal). Ao serem somados, com as devidas ponderações, obtém-se a análise do agronegócio.

Pelo critério metodológico do Cepea/Esalq-USP, o PIB do agronegócio é medido pela ótica do produto, ou seja, pelo Valor Adicionado (VA) total deste setor na economia. Ademais, avalia-se o VA a preços de mercado (consideram-se os impostos indiretos menos subsídios relacionados aos produtos). O PIB do agronegócio brasileiro refere-se, portanto, ao produto gerado de forma sistêmica na produção de insumos para a agropecuária, na produção primária e se estendendo por todas as demais atividades que processam e distribuem o produto ao destino final. A renda, por sua vez, se destina à remuneração dos fatores de produção (terra, capital e trabalho).

Após estimado o valor do PIB do agronegócio no ano-base, que desde janeiro/17 refere-se ao ano de 2010, parte-se para evolução deste valor de modo a se gerar uma série histórica, por meio de um amplo conjunto de indicadores de preços e produção de instituições de pesquisa e governamentais. Seja para a estimação anual do valor do PIB, ou para as reestimativas mensais das previsões anuais, consideram-se informações a respeito da evolução do Valor Bruto da Produção (VBP) e do Consumo Intermediário (CI) dos segmentos do agronegócio. Pela evolução conjunta do VBP e do CI, estima-se o crescimento do valor adicionado pelo setor. 

Com base nos procedimentos mencionados e processos adicionais realizados pelo Cepea, os cálculos do PIB do agronegócio resultam em dois indicadores principais, que retratam o comportamento do setor por diferentes óticas:

•          PIB-renda Agronegócio (equivale ao PIB divulgado anteriormente pelo Cepea): reflete a renda real do setor, sendo consideradas no cálculo variações de volume e de preços reais, sendo estes deflacionados pelo deflator implícito do PIB nacional.

•             PIB-volume Agronegócio: PIB do agronegócio pelo critério de preços constantes. Resulta daí a variação apenas do volume de produção. Este é o indicador de PIB comparável às variações apresentadas pelo IBGE.

Mensalmente, o foco de análise principal é o PIB-renda Agronegócio, que reflete a renda real do setor. Por conveniência textual, o PIB-renda do agronegócio é denominado apenas como PIB do Agronegócio ao longo deste relatório. Destaca-se que as taxas calculadas para cada período consideram igual período do ano anterior como base, exceto para as quantidades referentes às safras agrícolas, para as quais computa-se a previsão de safra para o ano (frente ao ano anterior).

Importante também destacar que cada relatório considera os dados disponíveis – preços observados e estimativas anuais de produção – até o seu fechamento. Em edições futuras, ao serem agregadas informações mais atualizadas, há a possibilidade, portanto, de ocorrer alteração dos resultados, tanto no que se refere ao mês corrente, como também ao que se refere a meses e anos passados. Recomenda-se, portanto, sempre o uso do relatório mais atualizado. Para uma análise mais detalhada dos aspectos metodológicos, bem como dos resultados dos demais indicadores (PIB volume, Consumo Intermediário, etc.) ver http://www.cepea.esalq.usp.br/br/pib-do-agronegocio-brasileiro.aspx




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