O Brasil no meio da luta comercial entre Estados Unidos e China

Por: Pedro Henriques Pereira*

 

A luta comercial entre Washington e Pequim ganhou novas proporções, com troca de farpas e medidas protecionistas. Quais os impactos para o agronegócio brasileiro? Como aproveitar as oportunidades que se criam? É preciso ter cautela para analisar essas questões e não deixar que a euforia do mercado financeiro domine o comércio internacional.

Com o objetivo de “penalizar a China por práticas comerciais desleais” e reduzir o déficit comercial, Donald Trump divulgou medidas que incluem a elevação de tarifas para itens importados do país asiático. Na lista estão milhares de produtos, incluindo televisores, peças de aeronaves, baterias, e componentes tecnológicos.

A retaliação chinesa veio de forma rápida. O país aumentou em até 25% as tarifas de importação para bens de diversos setores estratégicos norte-americanos. Produtos do agro – como soja, algodão, frutas, nozes e castanhas, vinhos, etanol, ginseng e carne suína – foram alvo de Pequim.

Se optarem pelo caminho do diálogo e a tensão se esvair, como ocorreu nos últimos dois dias, as medidas podem criar a base para novas negociações, maiores concessões (incluindo no agro) e melhor entendimento entre os países. Se a retórica protecionista perdurar, as ações podem colocar as duas principais economias mundiais num conflito comercial de grandes proporções, com “spill overs” para todas as demais economias.

O mercado chinês é vital para a economia rural americana. Por isso, as reações internas no país podem ser cruciais para definir a durabilidade das medidas. Grupos de interesse que constituem a base de apoio de Trump já se manifestaram duramente opostos às ações do presidente contra a China.

Os EUA são hoje o principal fornecedor de etanol ao país asiático, respondendo por cerca de 85% das importações. São também o 2º maior vendedor de carne suína e de soja em grãos, com 41% do mercado, atrás apenas do Brasil. A soja é o principal item de exportação dos Estados Unidos para a China.

Entre discursos e tuítes, alguns efeitos já foram sentidos no mercado. Após os anúncios, ondas de especulação fizeram o preço de algumas commodities despencar na Bolsa de Chicago. Como ainda não se sabe a solidez do que foi anunciado, não é possível fazer previsões e nem afirmar que essa movimentação caracteriza uma tendência.

Apesar da elevação das tarifas chinesas gerar grande euforia no Brasil, a cautela deve predominar. Essa reação poderá indicar se conseguiremos, ou não, e como, aproveitar as oportunidades no médio e longo prazo.

Brasil e Estados Unidos estão entre os principais produtores e exportadores agropecuários do mundo. Os dois países possuem sistemas produtivos semelhantes, o que acarreta alta concorrência no mercado mundial em vários setores, especialmente soja, milho, carnes de aves e bovinos. Contudo, isso não significa que a lacuna possivelmente deixada pelos EUA no mercado chinês pode ser suprida da noite para o dia pelo Brasil.

Uma coisa é certa: medidas protecionistas não são o melhor caminho para solucionar o conflito entre os países, nem para o aumento das exportações brasileiras. A maior eficiência na produção e políticas comerciais voltadas para o livre comércio devem ser a base para a competitividade e equilíbrio da balança comercial. Mesmo porque se ficarmos esperando ondas de protecionismo para crescer, isso pode se voltar contra nós.

Em um cenário em que o saldo da balança comercial torna-se fundamento para essas medidas, até o Brasil poderia ser um alvo. O saldo comercial do Brasil com seus cinco principais importadores traz superávits bilionários. Em 2017, tivemos US$ 2 bilhões de superávit com os EUA. Com a China, esse saldo positivo passa dos US$ 20 bilhões.

Além disso, casos passados de protecionismo no comércio mundial demonstram que sem uma política comercial robusta, uma produção competitiva e um trabalho voltado para a abertura e consolidação de mercados, essas oportunidades abruptas de comércio podem durar pouco.

Um bom exemplo para comparação é o caso do embargo russo à importação de frutas, vegetais, carnes, peixes e lácteos da União Europeia, Estados Unidos e outros de 2014. As sanções geraram benefícios imediatos para produtores de diversos países, incluindo o Brasil e os próprios russos.

A carne suína é exemplo. Com a saída da UE do mercado russo, a participação brasileira nas importações desse item passou de 21% em 2013 para 91% em 2017. O volume de exportação praticamente dobrou. Apesar disso, durante esse período, os frigoríficos viram uma escalada de restrições russas e, atualmente, o mercado encontra-se fechado para a carne suína brasileira. Isto é, as sanções entre russos e europeus aumentaram os níveis de protecionismo como um todo e voltaram-se contra o Brasil, embora, num primeiro momento, tenham criado oportunidades.

Por todos esses motivos, ainda que apresentem oportunidades para a ampliação de exportações de alguns produtos do agro brasileiro, as ondas de protecionismo também criam desafios e devem ser muito bem administradas para trazer benefícios ao exportador no médio e longo prazo. A recomendação é agir com prudência, pois existem muitas incertezas com relação às medidas anunciadas e muito está em jogo para China, Estados Unidos e as demais economias mundiais.

Apesar da reação no mercado financeiro, existem outros fatores que podem influenciar a oferta e a demanda mundial. No caso da soja, por exemplo, a quebra da safra argentina, a reação interna nos Estados Unidos, o prêmio pago nos portos brasileiros, e a própria capacidade dos demais exportadores de suprirem o mercado chinês precisam ser analisados.

Por isso, a ansiedade pode não ajudar. Precisamos lutar contra uma enxurrada de práticas protecionistas que pode realinhar exportadores e importadores, com impactos incertos para o Brasil. É crucial ter calma e trabalhar para o estabelecimento de parcerias duradouras e benéficas ao produtor rural brasileiro e a seus parceiros comerciais.

*Pedro Henriques Pereira é Assessor de Relações Internacionais da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Artigo publicado no Valor Economico. 

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