Como o acordo comercial na América do Norte impacta na agricultura brasileira

"Os nossos aplausos para o novo acordo com mexicanos e canadenses". É com essa frase que o presidente da maior associação de agricultores dos Estados Unidos inicia o comunicado da entidade sobre o acordo EUA-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês). Essa euforia, entretanto, não chegou aos agricultores do outro lado da fronteira com o Canadá.

É que o primeiro-ministro Trudeau cedeu à pressão de Washington a poucas horas do término das negociações. Simplificou as regras de classificação do trigo dos Estados Unidos e reduziu tarifas para a linha de lácteos, ovos e carnes de aves.

O texto resguarda a soberania de cada país para adotar barreiras sanitárias e fitossanitárias. Mas eventuais exceções ao livre comércio devem ser tratadas com rigor científico e transparência política. Os três sócios estão proibidos de empacotarem subsídios agrícolas nas exportações agropecuárias. E nada de painéis na Organização Mundial do Comércio - em caso de distorções de mercado, devem lavar a roupa suja em casa.

O Brasil não é nenhum exemplo de liberalismo comercial. E a assinatura de acordos efetivos deve ser prioridade para quem subir a rampa do Planalto em janeiro de 2019

Da América do Norte para a China, mas com escala no Brasil. Washington jogou água na tequila de empresários mexicanos que sonhavam com um acordo de livre comércio com a China. É que o USMCA inviabiliza a negociação com países que não tenham o rótulo de economia de mercado. Recado duro de Washington para Pequim: navegue com moderação nas águas do Atlântico Norte.

O fato é que a redução do déficit comercial passou de promessa de campanha para um dos principais pilares da política externa do governo Trump. Com a China e Europa, partiu direto para a guerra comercial - disparou artilharia pesada de tarifas e cotas de importação. Bruxelas aceitou negociar um armistício comercial. Mas o cabo de guerra de Trump com o camarada Xi Jinping segue firme.

O problema é que o Brasil pode ser a bola da vez se Trump voltar a sua política comercial para a América do Sul. O republicano já disparou contra o tratamento brasileiro a empresas dos Estados Unidos. O Brasil não é nenhum exemplo de liberalismo comercial. E a assinatura de acordos efetivos deve ser prioridade para quem subir a rampa do Planalto em janeiro de 2019. Mas estamos em tempos de cadeias globais de valor. E uma decisão protecionista de Trump também poderá afetar empresas norte-americanas que exportam daqui para lá.

Thiago Siqueira Masson é assessor de Relações Internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Professor de Cenários Internacionais da Faculdade de Tecnologia da CNA

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