CNA debate seguro rural e medidas para enfrentar riscos climáticos no campo
Comissão Nacional de Política Agrícola se reuniu na quarta (4)
Brasília (05/11/2026) - A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) debateu a implementação do Marco Legal do Seguro Rural, medidas emergenciais de apoio aos produtores e os possíveis efeitos do El Niño sobre a produção agrícola brasileira. Os temas pautaram a reunião da Comissão Nacional de Política Agrícola, na quarta (4).
Na abertura, o presidente da comissão, José Mário Schreiner, destacou a importância do seguro rural para a política agrícola e a necessidade de avançar na aplicação da nova legislação. Ele defendeu ainda uma atuação conjunta para cobrar a implementação da lei e buscar soluções para os produtores.
“O seguro rural é a peça principal da política agrícola e com o que o agro vem sofrendo ao longo dos anos. Precisamos nos posicionar e procurar uma solução para o produtor rural brasileiro”, argumentou.
O colegiado discutiu a redução da cobertura do seguro rural no país, que segundo dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) apresentados na reunião, o valor segurado caiu de R$ 50,5 bilhões, em 2024, para R$ 17,6 bilhões, em 2025, uma retração de 65%. No mesmo período, o número de produtores beneficiados passou de 85,5 mil para 41,7 mil, queda de 51%.
Ao apresentar as mudanças previstas no marco legal do seguro, Júlio Alexandre Menezes destacou a necessidade de melhorar a oferta de produtos e adequar as apólices às diferentes realidades da produção. Ele citou dados da pesquisa da CNA que aponta relatos de produtores sobre as dificuldades para encontrar seguros compatíveis com suas necessidades e que, muitas vezes, percebem a contratação mais como um custo do que como um benefício.
Entre os pontos abordados pela comissão estão a previsibilidade de recursos para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), a formação de bases de dados para precificação dos riscos e a operacionalização do fundo de cobertura suplementar, conhecido como Fundo Catástrofe. A expectativa é que o fundo contribua para ampliar a oferta de seguros e reduzir os custos para o produtor.
Endividamento – A comissão também abordou a Medida Provisória 1376/2026, que trata do endividamento dos produtores e as medidas de renegociação de dívidas. Os participantes relataram a preocupação com as condições para financiar o próximo ciclo produtivo, incluindo casos de produtores de Mato Grosso com dificuldades para viabilizar o plantio na próxima safra.
Sobre o assunto, o gerente executivo de Soluções Agro da Serasa Experian, Dyego Santos, apresentou dados sobre inadimplência e recuperação judicial no setor. De acordo com o levantamento da empresa de crédito, houve uma queda de 20% nos pedidos de recuperação judicial no comparativo trimestral. No entanto, os indicadores de inadimplência cresceram nos últimos anos.
Super El Niño - A Serasa Experian também apresentou um estudo sobre os possíveis impactos de um super El Niño na safra de soja 2026/2027. Segundo os dados, em uma área estimada de 49,9 milhões de hectares, a produção de soja, por exemplo, poderia atingir 163,6 milhões de toneladas, ante 181,2 milhões de toneladas em condições climáticas neutras.
A diferença de 17,6 milhões de toneladas representa uma redução de 9,7% e um impacto estimado de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP) da soja, com preços de agosto de 2026.
As perdas se concentrariam no Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso e Goiás. Já o Rio Grande do Sul poderia registrar aumento de produção, insuficiente, porém, para compensar a redução nacional estimada pelo estudo.
O economista Bruno Imaizumi trouxe outros dados sobre os possíveis efeitos do fenômeno na atividade agropecuária e os preços dos alimentos. Segundo ele, os impactos inflacionários tenderiam a ser mais intensos em 2027, segundo ano do evento.
Estimativas apontam impactos entre 3,6 e 9,6 pontos percentuais na inflação de alimentos no domicílio.
Entre os produtos que serão mais afetados pelo fenômeno climático estão feijão, café, açúcar e farinha de mandioca. Frutas, legumes e verduras também podem sofrer pressões no curto prazo. Para o Produto Interno Bruto (PIB) da agropecuária, a projeção apresentada é de queda de 0,7% em 2027.