CUSTO DE PRODUÇÃO E ANÁLISE ECONÔMICO-FINANCEIRA

O projeto Campo Futuro considera nos levantamentos o Custo Operacional, descrito por Matsunaga et al. (1976). Esse método é composto pelo Custo Operacional Efetivo (COE) e pelo Custo Operacional Total (COT).

O COE compreende todos os custos efetivamente desembolsados em um ano agrícola, envolvendo todos os componentes de custos gerados pela relação entre os coeficientes técnicos (quantidade utilizada) e os seus preços. Também se enquadram os custos administrativos e os custos financeiros do capital de giro. Os componentes do COE são renovados a cada ciclo produtivo.

O COT é o resultado da soma entre o COE, as depreciações de maquinários, implementos, benfeitorias, rebanhos (matrizes e reprodutores), lavouras e forrageiras perenes, e o pró-labore. O COT indica a possibilidade de reposição da capacidade produtiva do negócio no longo prazo, além da remuneração do responsável pelo gerenciamento da atividade.

O pró-labore corresponde à remuneração do responsável pelo gerenciamento da atividade e, em alguns casos, pode incluir a mão de obra familiar. Ele representa aquela remuneração que seria recebida em outra propriedade para exercer as mesmas atividades, ou seja, um valor de mercado.

Já as depreciações correspondem ao montante que deve ser poupado anualmente (custo implícito) para que o produtor possa renovar seus bens e garantir a manutenção de sua capacidade produtiva.

Ainda são considerados na metodologia do projeto Campo Futuro os custos de oportunidade dos bens de capital, do capital circulante próprio e da terra, que somados ao COT resultam no Custo Total (CT). O CT indica a situação econômica do empreendimento considerando todos os custos implícitos, que aqui se referem aos valores que esses fatores gerariam em investimentos alternativos.

O custo de oportunidade dos bens de capital, nesse caso, corresponde à aplicação de uma taxa de juros de 6% sobre o capital médio investido em máquinas, implementos, benfeitorias, lavouras e forrageiras perenes, e o valor de rebanhos (matrizes e reprodutores). O custo de oportunidade do capital circulante próprio também corresponde à aplicação de uma taxa de juros de 6% sobre o capital médio utilizado. O custo de oportunidade da terra é equivalente ao valor de arrendamento (aluguel) de terras semelhantes na mesma região.

As escalas dos custos de produção estão apresentadas na Figura 2, que também apresenta a Receita Bruta (RB). A RB de determinado exercício corresponde ao valor obtido com a venda de todos os produtos resultantes do processo de produção durante um ciclo produtivo. A análise da RB, isoladamente, é pouco conclusiva, pois nem sempre as atividades produtivas que apresentam maior RB são as melhores do ponto de vista econômico. Para determinar a atratividade da atividade produtiva, portanto, é necessário comparar a RB com o custo de produção.

Figura 2. Escalas dos custos apurados no projeto Campo Futuro e Receita Bruta
Fonte: Projeto Campo Futuro CNA.

Por meio do método do custo operacional são desenvolvidos indicadores contábeis. Esses indicadores expressam, de maneira geral, se as unidades produtivas geram valor ou não, ou seja, se seus custos de produção são maiores ou menores que o preço de venda (receita bruta) da produção.

A Margem Bruta (MB) resulta da subtração entre a RB e o Custo Operacional Efetivo (MB = RB – COE). Utilizando o conceito de margem bruta, as seguintes conclusões sobre o desempenho da atividade produtiva podem ser obtidas:

  • Margem bruta positiva (MB>0) significa que a RB é superior ao COE, ou seja, o produtor consegue saldar, pelo menos, o custeio da atividade. A atividade agropecuária será mantida no curto prazo.
  • Margem bruta negativa (MB<0) significa que a RB é inferior ao COE, o que torna a atividade antieconômica. Nesse caso, o produtor encontra-se em uma atividade “subsidiada”, uma vez que há a necessidade de captação de outras fontes de recursos para a manutenção do processo produtivo. No curto prazo, abandonando a atividade, o produtor minimizaria seus prejuízos, pois estaria sujeito a apenas uma parte dos custos fixos que continuariam existindo.

Alguns pontos deverão ser observados antes da decisão de sair da atividade. É importante verificar a composição dos custos e os indicadores tecnológicos, observando se há possibilidade de remanejamento dos fatores de produção ou a adoção de técnicas que reduzam os custos e/ou aumentem a produtividade e a RB.

Outro indicador é a Margem Líquida (ML). A ML resulta da subtração entre a RB e o Custo Operacional Total (ML = RB – COT). De acordo com o resultado da margem líquida, pode-se concluir:

  • Margem líquida positiva (ML>0) significa que a RB é superior ao COT, ou seja, a atividade produtiva se manterá em médio ou longo prazos. Os desembolsos realizados são pagos, o produtor é remunerado e há um montante que cobre os custos com depreciações.

  • Margem líquida negativa (ML<0) significa que a RB é inferior ao COT. Nesse caso, a atividade pode não remunerar adequadamente o produtor, e parte ou a totalidade dos custos com depreciações podem não ser cobertos. Nesse caso, o produtor encontra-se em um processo de “descapitalização”.

Também são desenvolvidos indicadores gerenciais, que são utilizados para medir a eficiência do processo produtivo. Eles permitem o benchmarking entre as diversas realidades regionais e a elaboração de planos de ação corretivos. Eles podem ser analisados em unidades físicas (massa, tempo, etc.) e/ou em unidades monetárias, e devem ser expressos relativamente a alguma outra estatística, como quantidade produzida, tamanho de área produtiva, tempo de trabalho, etc. Um indicador gerencial interessante é a Relação de Troca(1).

Outros indicadores são os econômicos. O lucro (L) é o resultado da subtração entre a RB e o CT (L = RB – CT). Caso o resultado dessa operação seja inferior a zero (L<0), ele é denominado “Prejuízo”. A análise do Lucro/Prejuízo permite chegar as seguintes conclusões: 

  • Se houver lucro (L>0), conclui-se que a opção do produtor em alocar seus recursos na atividade agropecuária proporcionou maior rendimento que as atividades alternativas (caderneta de poupança, por exemplo) e há possibilidade de expansão do negócio em médio ou longo prazos. Esta situação é denominada “lucro supernormal”, ou lucro econômico.
  • Se a RB for igual ao CT, ou seja, o lucro é igual a zero (L=0), significa que a atividade agropecuária proporcionou o mesmo retorno que seria obtido em atividades alternativas. Esta situação é denominada “lucro normal”.
  • Se não houver lucro (L<0), situação de prejuízo, significa que o produtor, no mínimo, deixou de ganhar ao optar pelo emprego de seu capital nos recursos produtivos da atividade agropecuária. Nesse caso, a atividade alternativa geraria maiores rendimentos, mas ressalta-se que o produtor deve avaliar a ML da atividade antes de tomar qualquer decisão sobre seu negócio.

As escalas dos custos de produção e as diferentes situações econômico-financeiras estão apresentadas na Figura 3.

Figura 3. Escalas dos custos apurados no projeto Campo Futuro e as diferentes situaçõeseconômico-financeiras
Fonte: baseado em Reis (2002).
Elaboração: Superintendência Técnica/CNA. Projeto Campo Futuro.
Nota: (i) Lucro Supernormal (Econômico); (ii) Lucro Normal; (iii) Processo de Descapitalização; (iv) Atividade Subsidiada.

Outro indicador é a Taxa de Remuneração do Capital (TRC), ou Rentabilidade. Esse é um dos mais importantes, pois permite comparar a rentabilidade do negócio com investimentos alternativos do mercado, ou seja, permite verificar a atratividade do negócio.

A TRC é o resultado, em porcentagem, da divisão da ML obtida na atividade pelo estoque de capital investido nos fatores de produção (capital médio empatado em maquinários, implementos, benfeitorias, lavouras e forrageiras perenes, mais o valor da terra e de rebanhos - matrizes e reprodutores).

REFERÊNCIAS

MATSUNAGA, M.; BEMELMANS, P.F.; TOLEDO, P.E.N.; DULLEY, R. D.; OKAWA, H.; PEROSO, I. A. Metodologia de custo de produção utilizado pelo IEA. Agricultura em São Paulo, São Paulo, v. 23, n. 1, p. 123-139, 1976.

Reis, R. P. Fundamentos de economia aplicada. Edição revista e ampliada. Lavras: Ufla/Faepe, 2002. 95 p.

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(1)Análise expressa por meio de índices que são obtidos pela divisão entre os preços de um fator produtivo e o preço médio de venda (receita bruta unitária) da produção agropecuária. Ao considerar a própria produção como moeda de troca, os índices indicam a quantidade necessária de produto a ser vendida para se adquirir uma unidade do fator produtivo. Se houver redução nos preços dos fatores produtivos ou aumento na receita do produto agropecuário, o índice de relação de troca tende a favorecer o produtor rural, e vice-versa.